A cena se repete diariamente pelas ruas de Salvador. O motorista aciona o pisca-alerta, deixa o carro trancando o portão de uma residência e sai prometendo voltar em “um minutinho”. Sob a ótica da sociologia, quando o indivíduo relativiza a regra em benefício próprio, ele rompe o pacto social e a confiança necessária para a convivência em comunidade.
O sociólogo e professor da Ufba Samuel Gomes analisa esse comportamento:
“A vida em sociedade implica, necessariamente, em acordos sociais, em respeito a determinadas normas que fazem com que as pessoas consigam conviver de maneira não violenta e cooperativa. A gente não conseguiu ainda atingir determinados patamares em que os indivíduos tenham uma compreensão mais coletivista do funcionamento da sociedade e das regras, e que a obediência a essas regras é fundamental para que a gente consiga construir uma sociedade melhor.”
Além do impacto sociológico, a atitude de trancar garagens pode ser explicada pela matemática, por meio da Teoria dos Jogos. Ela analisa cenários de tomada de decisão em que a escolha de um indivíduo afeta todo o grupo. Se todos respeitam a sinalização, a cidade flui de maneira harmônica.
O professor e pesquisador Leonardo Nascimento explica como essa conta não fecha:
“Uma notícia é calcular o preço da anarquia. O que seria o preço da anarquia? Seria a proporção de piora que você tem quando todo mundo age de maneira egoísta, digamos. Você teria um ganho coletivo se todo mundo usasse as regras de acordo com o melhor para todos, você teria uma organização melhor na cidade.”
Ligar o pisca-alerta não anula a infração nem autoriza a invasão do espaço alheio. Superar a cultura do egoísmo na mobilidade urbana exige respeito permanente às regras de convivência e a compreensão de que o trânsito é feito por e para todos.







