Notícias Falsas Sobre Câncer De Mama Podem Afastar Mulheres Do Diagnóstico Precoce

O acesso à informação confiável é uma ferramenta importante no enfrentamento ao câncer de mama. Em meio à circulação de notícias falsas sobre sintomas, exames e tratamentos, conteúdos sem comprovação científica podem alimentar o medo e levar mulheres a adiar a procura por atendimento. O problema ganha ainda mais relevância diante da estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca) de 78 mil novos casos da doença por ano no Brasil, entre 2026 e 2028.

A desinformação também pode reforçar dúvidas sobre a necessidade de investigação médica. Entre os mitos que circulam estão a ideia de que a ausência de histórico familiar impede o desenvolvimento da doença e o receio de que a mamografia ou a biópsia possam espalhar células cancerígenas.

Para a mastologista Larissa Bitencourt, notícias falsas podem interferir diretamente na busca por diagnóstico. “O maior perigo da notícia falsa é o desespero que paralisa. Quando uma mulher deixa de fazer a mamografia por medo da radiação ou ignora um sinal por achar que, sem histórico familiar, está imune, perdemos a chance da descoberta precoce. Orientar com base em evidências é devolver a tranquilidade a essa mulher”, afirma.

Segundo a especialista, a maioria dos diagnósticos ocorre em mulheres sem histórico familiar da doença. Ela também ressalta que a mamografia utiliza doses baixas de radiação e que a compressão das mamas durante o exame não espalha células tumorais. A biópsia por agulha, por sua vez, é utilizada para confirmar o diagnóstico e auxiliar na definição do tratamento.

A mastologista alerta ainda para a importância de verificar a procedência dos conteúdos compartilhados nas redes sociais. “A desinformação se veste de autoridade para gerar engajamento. Checar se a mensagem tem respaldo no Ministério da Saúde, no Instituto Nacional do Câncer (INCA) ou na Sociedade Brasileira de Mastologia é uma forma de autocuidado”, orienta.

Desigualdade racial no diagnóstico

A importância da informação também precisa ser considerada diante das desigualdades no acesso à saúde. Dados do Panorama do Câncer de Mama, divulgados pela Universidade de São Paulo (USP) em julho de 2025, apontam que 44% das mulheres pretas e pardas recebem diagnóstico tardio, enquanto o índice entre mulheres brancas é de 36%.

A publicitária Carolina Magalhães, de 39 anos, teve câncer de mama aos 29 e relata que, durante o tratamento, sentiu falta de referências de mulheres negras compartilhando suas experiências. A vivência contribuiu para que ela criasse, em 2020, o projeto Se Cuida, Preta, voltado à informação e ao acolhimento de mulheres negras.

“Eu não via pacientes negras contando suas histórias. A gente não estava em nenhum lugar. Eu fiz meu tratamento e tive trocas com poucas pessoas negras. Nas redes sociais, eu só via mulheres brancas falando sobre a doença. “Foi justamente para preencher essas lacunas e acolher esse público que eu criei a iniciativa”, conta.

Para Carolina, ampliar o acesso a informações de qualidade também significa discutir as barreiras enfrentadas pela população negra no atendimento de saúde. “O projeto existe para ampliar o acesso a informações confiáveis sobre câncer de mama e saúde da população negra, mas também para falar sobre o racismo que ainda influencia o acesso ao diagnóstico, ao tratamento e a um atendimento de qualidade”, afirma.

A experiência de outras pacientes reforça a importância desse conhecimento ao longo do enfrentamento da doença. Elisabeth Batista Moreira, de 42 anos, recebeu o diagnóstico aos 37 e destaca que compreender o câncer de mama pode ajudar as mulheres a participar das decisões sobre a própria saúde.

“Ter informação de qualidade pode significar reconhecer um sintoma mais cedo, procurar atendimento, entender um diagnóstico e conseguir participar das decisões do próprio tratamento”, afirma.

Diante da circulação de informações falsas, a orientação é consultar fontes confiáveis e procurar profissionais de saúde para esclarecer dúvidas. A informação correta não substitui a avaliação médica, mas contribui para que as mulheres reconheçam a importância de investigar alterações, compreendam os procedimentos e tomem decisões com mais segurança.