Travessias De Risco: As Tragédias Com Lanchas Entre Salvador E Morro De São Paulo Em 2025

Por Cíntia Santos

As travessias marítimas entre Salvador, Morro de São Paulo e municípios do Baixo Sul da Bahia vêm sendo marcadas por uma série de acidentes em 2025. Colisões, naufrágios e até incêndios expuseram falhas na fiscalização, divergências de responsabilidades entre órgãos e o sofrimento de famílias que perderam entes queridos.

Em abril, duas lanchas colidiram em Gamboa do Morro, resultando na morte de Gustavo Veloso, gerente de pousada. Em 8 de maio, uma lancha de passeio com 14 pessoas a bordo apresentou entrada de água próximo à praia de Garapuá. O marinheiro conduziu a embarcação até um banco de areia para evitar o naufrágio, e todos foram resgatados por outras lanchas que passavam. A turista Denise Marinho sofreu um corte no joelho e o marinheiro Ademilson de Jesus teve fratura em uma costela, sendo transferido para atendimento especializado.

Poucos dias depois, em 16 de maio, a lancha Sheknah VII, que fazia o trajeto Morro de São Paulo–Valença, pegou fogo no meio do percurso. A embarcação transportava 22 passageiros e dois tripulantes quando o incêndio começou, nas proximidades do Atracadouro Bom Jardim. O fogo foi controlado pela tripulação e todos desembarcaram em segurança, sem feridos.

O caso mais recente ocorreu em julho, quando o catamarã Morro de São Paulo, da Biotur, colidiu com uma embarcação pesqueira em Cacha Pregos, na Ilha de Itaparica. O catamarã transportava 97 passageiros e, segundo a empresa, a tripulação seguiu os protocolos de segurança. Os pescadores a bordo da outra embarcação não sofreram ferimentos graves.

Responsabilidade dividida

De acordo com a Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transportes e Comunicações da Bahia (AGERBA), atualmente operam três linhas regulares e três linhas por licença especial, incluindo Salvador–Morro de São Paulo. A agência informou que, após acidentes, suspendeu operações de empresas envolvidas, mas ressaltou que a fiscalização da segurança e emissão de certificados é responsabilidade da Marinha.

A Capitania dos Portos da Bahia reforça que as embarcações devem ter vistoria atualizada, tripulação habilitada e equipamentos de salvatagem em número adequado. A fiscalização é realizada rotineiramente, incluindo aplicação de testes de etilômetro em condutores.

Dor e cobrança

Foto: Acervo pessoal de Maritana Neta, viúva de Gustavo Veloso.

Para familiares das vítimas, no entanto, o cumprimento das normas não tem evitado a repetição das tragédias. Maritana Neta, viúva de Gustavo Veloso, gerente de pousada que morreu em uma das colisões, cobra justiça e mudanças efetivas.

“O laudo da Capitania deixa claro a falta de fiscalização, capacitação, orientação e controle do tráfego. Aponta inclusive a alta velocidade como causa. Gustavo morreu por imprudência e imperícia, e nada garante que outras famílias não passem pela mesma dor. Suspender a navegação noturna não basta. Quem prepara esses marinheiros? Quem fiscaliza no dia a dia? Quem garante a segurança no verão?”, questiona.

“Gustavo sofreu uma pancada na cabeça, ficou desorientado e acabou afundando com a lancha. Foi levado para o hospital de Valença, mas já chegou coberto. Ali eu percebi que tinha alguma coisa errada e recebi a notícia da morte.”

Foto: Acervo pessoal de Maritana Neta, viúva de Gustavo Veloso.

O impacto da tragédia atinge também as filhas do casal. “A falta que Gustavo está fazendo aqui em casa não vai ser em vão. Minha filha vai fazer dois anos no mês que vem e ainda chora chamando pelo pai, ainda vai na janela esperando ele voltar. Eu confesso que estou lutando contra uma depressão, mas preciso ser forte pelas minhas filhas.”

Em memória de Gustavo, ela diz seguir na luta para evitar novas tragédias. “Gustavo deixou como legado o valor da família e dos amigos. Agora eu sigo tentando honrar essa memória e lutando para que haja justiça.”

Empresas e investigações

Após o acidente em julho, o diretor da Biotur, Fabrício Brito, em entrevista ao Taktá, declarou que a tripulação “agiu de forma imediata ao identificar a situação de risco, seguindo os protocolos de segurança e salvatagem”.

A Capitania dos Portos informou que todos os inquéritos de 2025 ainda estão em andamento e serão remetidos ao Tribunal Marítimo. O Ministério Público também deve se manifestar sobre os casos para eventual responsabilização.

Com a proximidade do verão, período de maior fluxo turístico no litoral baiano, cresce a pressão sobre órgãos e empresas para que medidas concretas garantam segurança nas travessias.

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