Um estudo do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel) revelou dados preocupantes sobre a maternidade na adolescência no Brasil, com destaque para as disparidades regionais. Entre os principais resultados, a pesquisa mostra que 30,5% dos municípios do Nordeste registram taxas de fecundidade entre adolescentes semelhantes às de países de baixa renda.
A análise, que considerou todos os mais de 5,5 mil municípios do país, indica que uma em cada 23 adolescentes brasileiras, entre 15 e 19 anos, torna-se mãe a cada ano. De 2020 a 2022, mais de 1 milhão de jovens dessa faixa etária tiveram filhos no país. Entre meninas de 10 a 14 anos — faixa em que a legislação brasileira considera toda gestação como estupro de vulnerável — foram mais de 49 mil casos.
A taxa nacional de fecundidade na adolescência é de 43,6 nascimentos por mil meninas, número quase duas vezes maior do que a média de países de renda média alta, como o Brasil. O índice também supera largamente o de países parceiros no BRICS, como Rússia, Índia e China, que apresentam taxas máximas de até 16,3 por mil.
Segundo o epidemiologista Aluísio Barros, pesquisador da UFPel e líder do estudo, o Brasil deveria apresentar dados mais compatíveis com países de renda média alta. “Mas o que observamos foi um padrão muito mais próximo ao de países de renda média baixa ou até de baixa renda. O Nordeste, com 30,5% de seus municípios nessa faixa crítica, é um dos principais exemplos dessa disparidade”, afirmou.
A pesquisa aponta que a privação socioeconômica é o principal fator associado às altas taxas de gravidez na adolescência. Municípios com baixa renda, infraestrutura precária, altos índices de analfabetismo e poucos recursos concentram os piores indicadores.
“Esses números evidenciam que a maternidade precoce não é uma escolha, mas consequência de um contexto de exclusão social. A gravidez na adolescência, especialmente no Nordeste, é reflexo direto da pobreza, da evasão escolar e da ausência de políticas públicas efetivas”, reforça Barros.
Comparativo regional
O levantamento também revela um retrato desigual do país:
- Região Sul: taxa de 35 por mil adolescentes;
- Região Sudeste: 5,1% dos municípios com padrão de países de baixa renda;
- Região Norte: taxa de 77,1 por mil, com 76% dos municípios nessa faixa crítica;
- Região Centro-Oeste: 32,7%;
- Região Nordeste: 30,5%.
A superintendente-geral da Umane, Thais Junqueira, lembra que o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece acesso gratuito a métodos contraceptivos, além de desenvolver programas de educação sexual voltados a adolescentes, inclusive em parceria com escolas e organizações comunitárias.
“As pesquisas são fundamentais para compreendermos os múltiplos desafios que ainda enfrentamos. O fato de a gravidez na adolescência seguir como um problema tão persistente exige uma resposta mais articulada entre governo, sociedade civil e setor educacional”, afirmou Junqueira.







