O intestino é um órgão muito mais complexo do que apenas um tubo responsável pela digestão e absorção de nutrientes. Apelidado de “segundo cérebro”, o sistema também opera de forma autônoma e está interligado ao sistema nervoso, influenciando emoções e comportamentos — conceito conhecido como eixo intestino-cérebro.
Diante dessa complexidade, o mau funcionamento intestinal pode provocar não apenas distúrbios digestivos, mas também aumentar a sensação de ansiedade e estresse. Em entrevista à coluna Claudia Meireles, a endocrinologista Jacy Ribeiro revelou algumas medidas importantes para proteger e recuperar a saúde do órgão.
Segundo a especialista, antes de mais nada, é preciso ter atenção a determinados hábitos comportamentais e alimentares que, de forma discreta, prejudicam e causam desequilíbrio na microbiota intestinal.
Entre os mais nocivos, Jacy aponta o padrão da dieta ocidental como um dos principais “vilões”.“Rica em gordura, açúcar e pobre em fibras, esse padrão alimentar favorece a redução da diversidade bacteriana, o aumento de microrganismos potencialmente patogênicos e a diminuição de bactérias benéficas”, reforça Jacy Ribeiro.
Sinais de que o intestino não está bem
Quando o organismo é “bombardeado” por alimentos ultraprocessados, é comum que o corpo apresente sinais de que algo não está funcionando de maneira saudável. Antes de falar sobre o processo de recuperação intestinal, Jacy aponta sintomas sutis que podem passar despercebidos.
“Distensão abdominal no fim do dia ou logo após refeições, arrotos, gases mais frequentes ou com odor mais intenso, alternância de constipação e fezes amolecidas, além de dor abdominal inespecífica são alguns dos indícios”, comenta Jacy Ribeiro.
Os sinais, no entanto, não ficam restritos ao sistema digestivo. A mente, a pele, o cabelo, as unhas e até a saúde bucal podem ser afetados.
“Sonolência ou ‘névoa mental’, fadiga, oscilações de humor, ansiedade e sono fragmentado também podem representar problemas”, explica.
Outros aspectos que precisam ser observados, segundo a médica, são azia intermitente, mau hálito que não melhora com higiene oral, pele mais reativa (acne, rosácea), unhas fracas e queda de cabelo desproporcional.
Segundo a médica, esses sintomas podem refletir alterações na permeabilidade intestinal e inflamação de baixo grau. “Sangue nas fezes, perda de peso involuntária, febre, dor intensa ou história familiar de doença inflamatória intestinal, são sinais de alerta que exigem avaliação médica rápida”, alerta.
Atenção aos alimentos!
Buscando esclarecer os principais gatilhos de desconforto, Jacy Ribeiro listou algumas medidas que ajudam a recuperar o trânsito intestinal. O primeiro passo, segundo ela, é reduzir o consumo de ultraprocessados.
“Esses alimentos contêm emulsificantes e adoçantes artificiais que bagunçam o intestino”, salienta.
Pensando em dietas que fazem bem ao intestino, Jacy recomenda substituir esse padrão alimentar por modelos como a dieta mediterrânea. “Rica em vegetais, azeite, peixes e oleaginosas, a dieta é uma boa estratégia para recuperar a microbiota”, aponta Jacy Ribeiro.
A médica sugere ainda incluir fibras prebióticas na rotina diária. “Aveia, linhaça, psyllium, banana verde, aspargos e alho-poró são boas opções. Contudo, é importante começar a estratégia devagar para evitar gases”, salienta Jacy Ribeiro.
Alimentos fermentados também entram na lista dos aliados. “Uma porção por dia de iogurte natural, kefir, chucrute, kimchi ou missô pode ajudar no reequilíbrio do órgão”, comenta.
Estratégias para proteger e recuperar a saúde intestinal
Jacy Ribeiro também chama atenção para as rotinas aceleradas que acabam tornando as refeições igualmente apressadas. “Comer rápido e distraído — muitas vezes na frente de telas e sob estresse — é um outro hábito silencioso que mais vejo minando a saúde intestinal”, explica.
Segundo ela, ao engolirmos sem mastigar bem, pulamos a fase cefálica da digestão. “Essa etapa prejudica o momento em que o cérebro ‘avisa’ o intestino que a comida está chegando, reduzindo o tônus vagal e desorganizando a liberação de ácido gástrico, bile e enzimas pancreáticas”, alerta.
Para driblar os estímulos que acabam “travando” o intestino, Jacy Ribeiro sugere abandonar o hábito de fazer refeições com o celular na mesa ou em frente à TV.
“É preciso ter foco na hora de se alimentar. O ideal é desligar as notificações por 20 a 30 minutos enquanto estiver à mesa. Manter esse costume é a ‘tempestade perfeita’ para a disbiose — silenciosa no começo, ruidosa depois”, garante Jacy Ribeiro.
Jacy também destaca a importância da mastigação consciente. “O ideal é que se faça de 20 a 30 mastigadas por garfada. Uma boa prática é repousar os talheres entre uma e outra mordida”, avalia.
Hábitos conscientes
Com o intuito de ajustar o sistema digestivo, a especialista recomenda reequilibrar outros hábitos da rotina. “A qualidade do sono também faz diferença na recuperação. Sete a nove horas de sono, com horários consistentes, ajudam a regular o relógio biológico e a microbiota”, indica.
A prática de atividades físicas também é fundamental, inclusive após as refeições. “Caminhar por dez minutos depois de se alimentar já muda o jogo”, avalia.
Outro detalhe que pode fazer diferença — e que poucos levam em consideração — é o ritual de gratidão antes das refeições. “O nervo vago é a via rápida entre mente e intestino. O ritual de presença antes de comer, como um gesto de gratidão, integra corpo, mente e espírito — e melhora a digestão”, conclui Jacy Ribeiro.
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