Há mais de três décadas, o colecionador e antiquário Sávio Pinheiro dedica sua vida a preservar os fragmentos da história brasileira por meio de objetos que atravessaram séculos. Entre antiquários, leilões e coleções particulares, o engenheiro de telecomunicações garimpou milhares de itens que variam entre objetos, documentos históricos e livros com dedicatórias escritas à punho por grandes personalidades da cultura brasileira.
Hoje esse acervo, antes pessoal, é parte indissociável do Museu Histórias — instituição fundada por Sávio e reconhecida pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) —, que atualmente recebe pesquisadores, estudantes e pessoas apaixonadas pela história nacional.
Foi com esse entusiasmo e olhar apurado que, em dezembro de 2025, em um leilão, o colecionador adquiriu uma bala de canhão atribuída à invasão francesa comandada pelo corsário René Duguay-Trouin à cidade do Rio de Janeiro, em 1711, a partir da Baía de Guanabara.
A aquisição foi feita para servir como um complemento histórico de outros dois objetos do museu: duas edições raras das Memórias de Duguay-Trouin, que possuem as pranchas originais e desdobráveis da invasão, com plantas da cidade, a entrada dos 17 navios na Baía de Guanabara e as posições estratégicas perto do Mosteiro de São Bento e da atual Ilha Fiscal.
Confira mais detalhes sobre a bala de canhão exposta no Museu Histórias:
Fragmento da história nacional
Em conversa com a coluna Claudia Meireles, Sávio explica que, juntos, os três objetos demonstram a vulnerabilidade da cidades coloniais brasileiras. “Eles complementam essa história e gostaria de mostrar para adolescentes e crianças que visitam o museu”, salienta. Em ferro fundido, a bala de pouco mais de 15 quilos e 17 centímetros possui grafada a palavra “france” e foi encontrada em uma escavação nas imediações do Mosteiro de São Bento, palco central da invasão realizada corsário.
O historiador Cláudio Amorim, especialista em história popular e professor do Centro Universitário de Brasília (CEUB), destaca que peças como essa representam uma conexão material de um episódio decisivo na história do país.
“É um raríssimo elo físico com um dos episódios mais traumáticos e surreais da história do Rio”, analisa o historiador.
Amorim pontua que junto aos objetos que ampliam o contexto, a peça recupera a função de prova histórica. “Sem história, ela é só um peso de porta; com o selo de ‘estive na invasão de 1711’, ela vira documento”, complementa o especialista.
Bala de canhão é objeto de disputa
Dias após a aquisição por Sávio, no dia 11 de dezembro de 2025, a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro publicou um decreto declarando a peça de utilidade pública para fins de desapropriação. No documento, a instituição pública atribui a medida à preservação do patrimônio histórico-cultural do município.
Representantes da governo municipal entraram em contato com o museu administrado e fundado por Sávio, que afirma ter recebido a notícia com surpresa e que ainda avalia os próximos passos junto à equipe técnica e ao conselho.
“Dediquei mais de 30 anos da minha vida a reunir essas peças”, reitera o antiquário, que relata preocupação institucional e jurídica diante do cenário. “Nosso temor é que, se isso pode ser tomado, o que mais poderia ser expropriado do museu? Aqui há coisas únicas no Brasil”, completa.
Por ser um museu reconhecido e com missão de difundir a história nacional, Sávio Pereira afirma não compreender a necessidade da expropriação do bem do museu, visto que o local já exerce a função de proteger o patrimônio cultural. “Tenho profundo respeito pela autoridade e acredito que ela não sabia que estava fazendo a expropriação de um museu devidamente reconhecido”, argumenta o fundador do Museu Histórias.
A prefeitura do Rio de Janeiro foi procurada pela coluna, mas não respondeu aos questionamentos até a publicação dessa matéria e o Metrópoles reafirma que o espaço segue aberto para quaisquer esclarecimentos.
Análise jurídica
Do ponto de vista jurídico, os advogados Juscelino Garcia de Oliveira e Geison Silvestre de Meira, ouvidos pela coluna, explicam que a desapropriação de bens móveis, como é o caso da referida bala de canhão, é prevista na legislação brasileira, desde que sejam confirmados os quesitos legais de motivação adequada, sob pena de nulidade por vício de finalidade, bem como o pagamento de indenização prévia, justa e em dinheiro.
Na nota técnica enviada à reportagem, os juristas avaliam que “a declaração de utilidade pública não transfere automaticamente a propriedade ao Poder Público” e que “trata-se de ato inicial com efeitos jurídicos preparatórios e autorizativos”. O fato do bem estar sob a guarda de um museu reconhecido pode ser considerada elemento relevante na “avaliação da proporcionalidade da medida”. Antes da expropriação, existem outros caminhos que podem ser ser seguidos, como a parceria entre o Museu e a prefeitura do Rio ou o tombamento histórico da peça.
“Diante de um bem já devidamente preservado em instituição museológica reconhecida, cabe ao Poder Público demonstrar a real necessidade da transferência da propriedade, sob pena de configurar intervenção desproporcional na esfera privada”, diz a nota técnica.
Destino incerto
Enquanto o destino do objeto segue indefinido, Sávio continua conduzindo pessoalmente as visitas ao Museu Histórias e apresentando aos visitantes objetos como uma maneira de manter viva a história. “São coisas que ajudam a compor a história do Brasil”, resume.
Para o colecionador, cada peça do acervo representa não apenas memória, mas também um compromisso contínuo com a educação e a preservação cultural — missão que ele mantém ativa há mais de três décadas, guiado pelo entusiasmo de quem acredita que a história ganha vida quando pode ser vista de perto.
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