O Cenipa, Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, divulgou, nesta quinta-feira (23), o relatório final sobre a queda do avião da Voepass, que matou 62 pessoas, em Vinhedo, no interior de São Paulo, há quase dois anos. O documento aponta 19 fatores contribuintes, entre falhas da tripulação, problemas organizacionais da empresa e fiscalização insuficiente da Anac, a Agência Nacional de Aviação Civil.
Segundo o Cenipa, os pilotos tinham informação sobre a previsão de gelo severo na rota — um voo anterior já havia percebido a mesma formação —, mas o dado não chegou a ser registrado nem repassado ao despacho da aeronave. A comissão descobriu que deixar de anotar falhas no diário de bordo não era um caso isolado. Ao analisar outros dois voos anteriores ao acidente, o Cenipa identificou três tripulações diferentes repetindo essa conduta e resolveu ampliar a investigação para outros voos da frota.
Segundo o responsável por investigar o caso, tenente-coronel Paulo Fróes, da Força Aérea Brasileira, a prática já era recorrente na Voepass e impedia providências como manutenção corretiva ou troca da aeronave:
“O que a gente está falando sobre não reporte no diário de bordo se chama normalização do desvio. Quando a gente fez a análise dos voos menos um, menos dois e menos três, três tripulações diferentes executando normalizações de desvio dentro daqueles três voos diferentes. E, por esse motivo, nós fizemos uma análise mais ampla, aqueles 1.206 voos, e notamos que não só essas três tripulações, mas outras demais tripulações também executavam esse tipo de procedimento, onde a gente viu que isso era uma cultura organizacional”.
Anac
O relatório também recai sobre a Anac. A comissão constatou que a agência já havia identificado, em fiscalizações feitas entre 2022 e 2024, fragilidades na manutenção da Voepass, panes que não eram registradas em diário de bordo, uso de ferramentas inadequadas e reparos feitos em bases sem estrutura para o tipo de problema. É o que explicou o Chefe de Divisão de Investigação do Cenipa, Raphael Vilar:
“Foi adotada uma série de sanções pela agência, dependendo, logicamente, da complexidade do que eles identificavam na empresa. A título de exemplo, suspensão de rotas, de pessoal e de algumas aeronaves. Foram feitas, portanto, diversas ações de fiscalização e ações sancionatórias. Entretanto, a comissão de investigação concluiu que, infelizmente, essas ações não foram suficientes para mitigar os riscos encontrados na empresa, o que permitiu a continuidade da operação.”
Em nota, a Voepass afirmou que o acidente foi o momento mais difícil da história da empresa e disse manter apoio psicológico às famílias, reforçando que colaborou com as investigações desde o início.
O documento, de caráter preventivo, não aponta culpados nem define responsabilidades civis ou criminais, mas deve servir de base técnica para o inquérito da Polícia Federal, que investiga os responsáveis que não estavam a bordo, e para uma comissão do Congresso que acompanha o caso.







