Salvador Contra A Fome: Como Os Restaurantes Populares Chegam A Quem Mais Precisa

Comida Acessível: Restaurantes Populares Servem 900 Mil Refeições Por Ano Em Salvador

Por Julia Lima, com informações de Záfya Tomaz 

Para milhares de pessoas em Salvador, o almoço servido nos Restaurantes Populares representa mais do que uma refeição. É uma forma de economizar, garantir comida no dia, ter acesso a uma alimentação mais saudável e, em alguns casos, ter acesso a uma rede de proteção social. 

Para seu Carlos José, de 56 anos, o serviço mudou a realidade das pessoas do bairro e proporcionou a garantia de uma refeição. “É o bairro das pessoas carentes. Tem o seu almoço na hora certa; isso é uma grande satisfação. Muda e mudou mesmo o bairro”, disse. 

A escolha dos bairros onde os Restaurantes Populares são instalados leva em consideração dados que ajudam a identificar a população em situação de vulnerabilidade e insegurança alimentar. Para isso, são analisados os registros do Cadastro Único e outros indicadores sociais capazes de identificar as necessidades existentes nos territórios. 

Hoje, Salvador conta com dez unidades do Restaurante Popular, que oferecem juntas cerca de 4.400 refeições gratuitas por dia, de segunda a sexta-feira, das 11h às 13h. O serviço está distribuído em diferentes regiões da cidade e atende áreas onde há maior demanda por políticas de segurança alimentar. 

De acordo com o responsável pela Secretaria de Promoção Social e Combate à Pobreza, Esporte e Lazer (SEMPRE), Júnior Magalhães, a estratégia é fazer com que o serviço esteja perto de quem mais precisa. 

“O critério de implantação dos restaurantes é onde nós temos um número maior de pessoas em vulnerabilidade social, em insegurança alimentar, que a gente precisa combater a fome. Fomos espalhando por toda a cidade com esse estudo que a gente foi fazendo de mapeamento de fato da fome”, afirmou.  

A presença dos restaurantes nessas localidades também permite que o poder público identifique outras necessidades dos usuários. Quando uma situação que vai além da alimentação é percebida, a pessoa pode ser orientada ou encaminhada para serviços da rede de assistência social, como os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS).

“A gente sabe que essa alimentação não resolve todos os problemas da família, mas o nosso conceito é esse. É poder conhecer essas pessoas, poder referenciar aos CRAs, referenciar aos CREAs, aos Centros Pop, para que eles possam ser acompanhados, oferecer cursos de qualificação, geração de renda, para que futuramente eles não precisem mais estar na fila do restaurante para ter o prato de comida”, disse Júnior.   

A oferta diária de milhares de refeições está inserida em uma política de segurança alimentar, que busca garantir o acesso regular a uma alimentação adequada para pessoas em situação de vulnerabilidade.

Segundo Valéria Lago, nutricionista responsável pelo planejamento do cardápio de uma das unidades, além de todo o procedimento técnico, o serviço também leva em conta o acolhimento e escuta sobre as pessoas que frequentam, para que o produto final possa ser entregue diante das diferentes situações e necessidades. 

“Acredito que, além da alimentação em si, o que vai no prato que a gente fornece. É também ter o afetivo, né? Como aqui tem o tratamento educado. A gente recebe as pessoas para praticar a escuta. Eles conversam com a gente. Mas também é ter a segurança dos alimentos. Onde você fiscaliza o processo todo da preparação”, contou em entrevista. 

Para quem utiliza o serviço, porém, a política pública aparece de uma maneira mais simples: no prato servido todos os dias.

E para Dona Lindomar Freire, de 58 anos, ele representa economia. “Já economizou as compras de casa, economizou o nosso bolso;  sempre é bem-vindo um real que a gente economize. E aqui, como eu disse, é um conjunto. E a parte financeira pesa bastante”, compartilhou. 

É nessa e em tantas outras realidades que se dá dimensão aos números. As dez unidades e as 4.400 refeições oferecidas diariamente representam uma estrutura pública criada para enfrentar uma necessidade básica: garantir que a população tenha acesso à alimentação.

No fim, o Restaurante Popular não funciona apenas como um lugar para almoçar. Para quem está em situação de vulnerabilidade, também pode ser a porta de entrada para outras formas de proteção social.