O que começou em 2013 na Bahia como iniciativa do Odara, Instituto da Mulher Negra, se consolida hoje como maior agenda de incidência política construída por mulheres negras na América Latina.
Em sua 14ª edição, o Julho das Pretas alcança uma escala histórica em 2026. São 675 atividades articuladas por 292 organizações e coletivos espalhadas por 23 estados brasileiros no Distrito Federal e em mais três países.
Naiara Leite, diretora executiva do Instituto Odara, relembra o objetivo inicial da proposta. O que era para ser uma jornada local de debates de uma semana, expandiu-se rapidamente.
“O Julho das Pretas nasce da perspectiva de fortalecer o 25 de julho, o Dia Latino-Americano e Caribenho de Mulheres Negras, criado em 1992. A ideia era pensar uma agenda coletiva que desse conta de manter a perspectiva da denúncia sobre a situação de violação e de violência que estão imersas as meninas e as mulheres negras e a população negra como um todo, mas que também reforçasse as narrativas, as vozes e as visões de mundo que as mulheres negras querem defender. Ao mesmo tempo que a gente denuncia, a gente apresenta uma outra perspectiva”.
Reparação e bem-viver
A edição de 2026 gira em torno de duas colunas centrais: reparação e bem-viver. Conceitos que representam uma resposta prática e urgente às desigualdades estruturais.
Naiara destaca que a agenda internacionalizada é o reflexo de que o futuro desenhado pelo bem-viver é, acima de tudo, coletivo e sem fronteiras.
“O Julho é parte de um legado da trajetória de construção da luta do movimento de mulheres negras (…) Eu faço parte da Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas, Afro-Caribenhas e da Diáspora, a articulação que cria o 25 de julho em 1992, na República Dominicana. Hoje ver essa rede e eses vários países dizendo: ‘é Julho das Pretas!’ É extremamente gratificante. A gente não só sensibilizou outras partes do mundo sobre uma agenda que nós criamos, como também a definição dos temas. Então você vai ver outros países fazendo o debate sobre o que é reparação para nós mulheres negras nesses países – Argentina, Bolívia, Colômbia? O que é o bem-viver? Como nós vamos construir isso? Um processo que cresceu e que está alinhando ao movimento de mulheres negras de pensar que nossa luta é transnacional”
Olhar para a trajetória do Júlio das Pretas é desenhar os horizontes para as próximas edições e para as futuras gerações de mulheres negras. Para Naiara, a expansão da proposta abre caminhos para que o movimento ocupe espaços ainda mais estratégicos para os próximos anos.
“Espero que, a partir dessa 14ª edição e os temas que ela evoca, as mulheres negras fortaleçam ainda mais as suas capacidades de luta, de denúncia. Eu espero que toda essa articulação nacional e internacional que nós temos mobilizado a partir do Julho e a partir das diferentes agendas que o movimento vem construindo, inclusive da própria Marcha, que aconteceu em 2025, a gente consiga chamar a atenção das mídias, da sociedade brasileira, da sociedade global, dos poderes públicos, do legislativo, do sistema de justiça, sobre quais são as emergências e as necessidades de transformações urgentes e imediatas. Nós temos várias necessidades urgentes e imediatas: o feminicídio de meninas, jovens e mulheres negras, a violência sexual, a questão econômica, o trabalho doméstico decente, o assassinato de crianças jovens e adolescentes, crescente no Brasil… Eu espero que essa edição do pós-marcha potencialize a pressão que os movimentos vão fazer sobre esses setores para uma transformação”.






