Todos os meses, no Brasil, seis em cada dez meninas e adolescentes dos ensinos fundamental e médio têm a rotina escolar afetada devido a dores durante o período menstrual. Quatro em cada dez chegam a faltar às aulas.
Essas informações são de uma pesquisa inédita, dos Institutos Alana e Equidade.info, divulgada nesta quarta-feira (27), véspera do Dia Internacional da Dignidade Menstrual.
Segundo o levantamento, quase 58% das entrevistadas disseram que a cólica é o principal sintoma durante o período menstrual que as impede de ir à escola.
Já os sintomas como cansaço e dores no corpo são citados por 30%, seguidos de dores de cabeça, com 28%; dor de barriga, com 20%, e vergonha ou medo de vazamento por cerca de 19% das alunas ouvidas.
Lara Soares, de 16 anos, diz que já precisou faltar às aulas por cólicas e que a menstruação ainda é tratada como tabu dentro do ambiente escolar.
“A escola ainda trata muito pouco sobre menstruação e saúde menstrual, então faz com que o assunto continue sendo um tabu. Muitas meninas sentem vergonha de falar sobre isso, então às vezes as pessoas nem entendem o que a gente tá passando durante esse período. Então, eu acho que a escola deveria sim conversar mais abertamente sobre o tema, porque isso aí ajudaria as alunas perderem a vergonha e aí elas se sentiriam mais acolhidas também.”
O estudo aponta, ainda, que os sintomas menstruais levam a até dois dias de falta por mês, e que essas ausências podem afetar o aprendizado, vínculo com a escola e oportunidades educacionais.
Para Sofia Reinach, líder da iniciativa de endometriose, dor pélvica e saúde menstrual do Instituto Alana, a dor não pode ser naturalizada.
“Muitas dessas meninas procuram equipamentos de saúde, procuram ajuda para resolver as suas cólicas, mas elas não são olhadas e ouvidas com o cuidado necessário. O que nos preocupa é a não naturalização da dor menstrual. Os profissionais de saúde precisam estar preparados para olhar para as dores menstruais como um possível diagnóstico e que deve ser tratado independente de encontrar outros indícios de doenças.”
A pesquisa também ouviu professoras e gestoras escolares. Sofia diz que existe uma diferença de percepção sobre a estrutura dos banheiros nas unidades de ensino.
“Apesar de essa ser uma preocupação bem menor do que as dores, a preocupação das meninas sobre a estrutura dos banheiros é maior do que a preocupação entre professoras e gestoras. Ou seja, a estrutura do banheiro ainda é algo que preocupa as meninas e isso deve nos fazer pensar sobre que banheiros são esses que as meninas estão utilizando. São banheiros diferentes das adultas? O que pode estar faltando nesse banheiro para que essas meninas se sintam seguras?”
Para o Instituto Alana, é necessário tratar a saúde menstrual como uma agenda de proteção integral, envolvendo diagnóstico precoce, cuidado em saúde, educação, infraestrutura adequada, enfrentamento de tabus culturais, produção científica e políticas públicas integradas.
O levantamento foi realizado com 2.551estudantes, sendo 770 alunas que menstruam, além de 303 docentes e 181 gestoras escolares, das redes pública e privada de todas as regiões do país.
*Com produção de Dayana Vitor







