Por Thiago Conceição
“Longe o feudal castelo levanta a antiga torre, que aos raios do poente brilhante sol escorre!”. A imagem descrita pelo poeta na obra A Boa Vista está longe de refletir o cenário atual. A beleza exaltada nos versos não encontra eco no que atualmente se vê: um espaço tomado pelo abandono, pelo mato alto e pela deterioração.
Localizado no Engenho Velho de Brotas, em Salvador, o Solar Boa Vista convive há 13 anos com o descaso. Desde o incêndio, em janeiro de 2013, quando ainda abrigava a Secretaria Municipal da Educação, o imóvel entrou em um processo contínuo de degradação. A perícia apontou um curto-circuito como causa do fogo, mas desde então, nenhuma proposta de requalificação saiu do papel.
Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1938, o casarão reúne uma trajetória que atravessa séculos. Foi adquirido em 1858 pelo pai de Castro Alves e, anos depois, transformado no primeiro hospício de Salvador. Também funcionou como Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, sede da Prefeitura de Salvador e, mais recentemente, como Secretaria da Educação.
Atualmente, no entanto, não reúne condições mínimas de uso. Para o historiador Ricardo Carvalho, o estado atual do imóvel revela uma contradição profunda em uma cidade como Salvador. “Salvador tem a oportunidade de ser um verdadeiro museu a céu aberto, com tantos personagens importantes ligados a espaços físicos. Isso é uma bênção para a cidade. E o Solar Boa Vista faz parte disso”, afirmou.
Foto: Thiago Conceição / Taktá
Ele destaca que o casarão não é apenas uma construção antiga, mas um símbolo cultural diretamente associado a um dos maiores nomes da literatura brasileira. “Estamos falando de um espaço que representa o maior poeta da língua portuguesa depois de Camões. Castro Alves foi o poeta dos escravos, um homem engajado social e politicamente, uma figura central da nossa história. E esse lugar guarda parte dessa trajetória”, pontuou.
Ricardo Carvalho chama atenção para o valor simbólico do imóvel. “Ali é uma página da história de Salvador que está amassada, enrugada, mas que pode ser recuperada. Não é só sobre restaurar um prédio, é sobre preservar a memória”, disse.
O historiador ainda defende uma solução voltada à valorização cultural do espaço. “Seria extremamente interessante transformar o local em um memorial dedicado a Castro Alves, principalmente com a proximidade dos 180 anos do poeta. Um equipamento como esse precisa estar disponível para a população”, afirmou.
Para ele, permitir que o imóvel siga em deterioração compromete a própria identidade da cidade. “Não se pode permitir que um marco histórico como esse caia em escombros. Salvador não pode perder esse tipo de patrimônio”, concluiu.
Ao longo dos anos, o Solar Boa Vista foi alvo de diferentes propostas. Em 2019, surgiu a ideia de transformá-lo em uma central de diagnóstico por imagem. Em 2022, o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia sugeriu a criação de um Museu da Libertação. No mesmo ano, a Secretaria Estadual da Saúde anunciou estudos para implantação da Central Estadual de Laudos da PPP de Imagem. Ao Taktá, a Sesab informou que a Central de Laudos funciona atualmente em outro local, ficando sob responsabilidade da RBD, parceiro privado na PPP de Imagem.
Nenhuma das iniciativas, porém, foi executada. Em 2023, o Governo do Estado da Bahia se tornou réu em uma ação do Ministério Público Federal, que cobra medidas emergenciais para recuperação do imóvel. Laudos técnicos já apontaram risco de desabamento, enquanto o Iphan chegou a considerar medidas judiciais.
Foto: Acervo Iphan
Comunidade cobra respostas
Morador do bairro desde que nasceu, Manoel Costa de Oliveira, de 63 anos, lembra de quando o espaço era ativo. “Isso aqui já foi tudo organizado, funcionando. Depois do incêndio, abandonaram. Até hoje ninguém diz o que vai ser”, afirmou.
O líder comunitário Jailton Ribeiro reforça a cobrança por respostas e critica a indefinição. “Já teve reunião, já apresentaram várias propostas, mas ninguém diz o que realmente vai acontecer. A gente continua sem resposta”, disse.
Ele também chama atenção para o impacto direto na comunidade. “O prédio está aí abandonado, com gente ocupando, e a população sem saber o que vai ser feito. Isso gera insegurança e revolta”, completou.
Morador do bairro há oito anos, Waldeck Oliveira destaca o sentimento coletivo diante da situação. “É muito triste ver um espaço tão importante nessas condições. A comunidade se mobilizou, cobrou, e agora espera que as obras avancem e tragam valorização para o bairro”, afirmou.
Futuro
Com o passar dos anos, o Solar Boa Vista passou a ser ocupado por pessoas em situação de rua. O acúmulo de lixo e o crescimento da vegetação agravaram ainda mais o cenário de abandono.
A reportagem do Portal Taktá no Ar esteve no local e encontrou poucos trabalhadores atuando na obra de estabilização da estrutura, iniciada em novembro de 2025. Os serviços de escoramento estão orçados em cerca de R$ 1,1 milhão. No entanto, mesmo com o investimento, materiais de construção estavam espalhados pelo chão e a movimentação era mínima.
O Portal Taktá entrou em contato com a Secretaria Estadual de Cultura e o Iphan e aguarda retorno sobre o futuro do imóvel.







