Você costuma se lembrar dos sonhos ao acordar? Enquanto algumas pessoas conseguem descrever cenas inteiras como se tivessem vivido uma história durante a noite, outras mal sabem dizer se sonharam ou não. Mas o que explica essa diferença?
Uma das principais razões é o momento do despertar. A psicóloga Larissa Fonseca, que atua em São Paulo, explica que há mais chances de lembrar do conteúdo dos sonhos quando acordamos logo após ou durante a fase REM — estágio do sono caracterizado por intensa atividade cerebral e onde ocorrem os sonhos mais vívidos e emocionais.
“Pessoas que despertam várias vezes à noite tendem a lembrar mais dos sonhos justamente por essa interrupção dos ciclos”, afirma.
O médico do sono Sérgio Pontes Prado, que atua em Minas Gerais, reforça esse ponto. “Não é que quem acorda repetidas vezes à noite sonha mais, mas estudos mostram que essas pessoas têm mais facilidade para se lembrar dos sonhos, especialmente se despertam durante o sono REM”, destaca.
Segundo Prado, o sono REM ocorre com mais intensidade na segunda metade da noite. Por isso, quem dorme pouco tende a ter menos dessa fase e, consequentemente, menos recordações ao acordar.
Além do momento do despertar, a personalidade também importante. De acordo com o especialista, pessoas mais fantasiosas ou que atribuem valor simbólico aos sonhos costumam se lembrar com mais frequência. “Às vezes elas não acordam com a lembrança nítida, mas vão se recordando ao longo do dia”, conta Prado.
A capacidade de memorização também influencia na lembrança dos sonhos, já que quem aprende com mais facilidade tende a guardar melhor o que sonhou.
A idade também exerce influência. Com o passar dos anos, o sono REM tende a diminuir, o que reduz as chances de lembrar dos sonhos. Até o clima interfere, já que o frio pode afetar negativamente essa fase do sono.
A psicóloga Larissa acrescenta que o contato com o mundo interno também pode influenciar na experiência. “Quando estamos em processos de autoconhecimento ou em terapia, os sonhos costumam se intensificar”, afirma.
Segundo Larissa, a psicanálise entende que os sonhos são uma via de acesso ao inconsciente, e lembrar deles pode indicar uma conexão mais ativa com conteúdos emocionais profundos.
Medicamentos e qualidade do sono
A qualidade do sono e o uso de determinados medicamentos também interferem bastante na lembrança dos sonhos. Condições como apneia e o uso de substâncias como álcool, antidepressivos, sedativos e outros remédios que atuam no sistema nervoso central podem modificar o padrão do sono REM, reduzindo ou alterando a experiência dos sonhos.
A neurologista Natasha Consul Sgarioni, da clínica Mantelli, explica que a interrupção de alguns desses remédios pode provocar mudanças perceptíveis no conteúdo onírico. “Já a suspensão de certos medicamentos pode gerar um efeito rebote, com sonhos mais intensos e frequentes”, afirma.
Essas alterações podem afetar não só a intensidade como também o tipo de sonho, explica a neurologista Natália Nasser Ximenes, do Hospital Santa Lúcia, e membro da Academia Americana de Neurologia (AAN).
“Alguns medicamentos, como antidepressivos, ansiolíticos e antialérgicos, podem aumentar tanto a recordação quanto a ocorrência de pesadelos. Acredita-se que isso esteja relacionado a alterações na neurotransmissão cerebral e na arquitetura do sono”, diz.
Sonhar muito é ruim?
Sonhar e lembrar dos sonhos não é, por si só, sinal de problema, tudo depende do conteúdo e da forma como a pessoa lida com isso. Segundo Natasha, os sonhos podem até ser benéficos do ponto de vista emocional.
“Eles ajudam no processamento de experiências e sentimentos do dia a dia. Mas, quando se tornam recorrentes e angustiantes, ou evoluem para pesadelos frequentes, podem estar associados a estresse, ansiedade ou até distúrbios como o transtorno comportamental do sono REM”, alerta.
Em geral, sonhar faz parte de um cérebro saudável. O impacto emocional, no entanto, depende do contexto e da intensidade dos sonhos.
O cérebro pode ser treinado para lembrar mais dos sonhos?
Com algumas práticas simples, é possível melhorar a lembrança dos sonhos. Uma delas é manter um diário ao lado da cama para anotar qualquer fragmento do sonho assim que acordar. Isso ajuda a fortalecer a conexão entre o sonho e a memória consciente, explica Larissa Fonseca.
Manter uma rotina de sono regular também contribui para lembrar melhor dos sonhos, assim como o acompanhamento terapêutico. “Durante a terapia, as pessoas costumam se lembrar mais dos sonhos porque ficam mais conectadas aos seus conteúdos internos. Mesmo sonhos repetitivos ou angustiantes podem ajudar a lidar com questões emocionais”, destaca.
Quem prefere lembrar menos dos sonhos deve investir na qualidade do sono, evitando interrupções durante a noite, dormindo o tempo necessário e tratando possíveis distúrbios do sono.
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